América Latina. A Inteligência Artificial (IA) está se tornando o novo sistema operacional do mundo digital. O que há apenas três anos parecia um experimento interessante agora está no centro da estratégia das Big Techs.
Nesse contexto, a decisão da Apple de confiar no Google para alimentar a Siri com modelos Gemini é uma das medidas mais relevantes que vimos nesta disputa.
A Apple construiu seu sucesso sob controle quase absoluto de seu ecossistema, seu próprio design, seu próprio hardware e seu próprio software. Essa integração vertical permitiu que ele criasse produtos que funcionavam perfeitamente entre si. No entanto, a inteligência artificial generativa foi um divisor de águas. Desenvolver modelos avançados de linguagem exige enormes quantidades de dados e poder computacional, uma área que o Google aproveitou.
Siri sempre foi uma assistente funcional, mas limitada. Projetado para tarefas concretas e respostas estruturadas, nunca evoluiu para uma interação verdadeiramente conversacional. Quando surgiram modelos de linguagem capazes de entender o contexto e gerar respostas complexas, essa limitação se tornou ainda mais evidente.
O acordo entre Apple e Google é, acima de tudo, um ato de autocrítica. A Apple reconhece que, para competir seriamente em inteligência artificial, precisa de um parceiro com força tecnológica comprovada. O Google, por sua vez, obtém acesso privilegiado a um ecossistema de mais de dois bilhões de dispositivos. A Apple fornece a interface, o design e o relacionamento com o usuário, enquanto o Google fornece o motor cognitivo.
Essa jogada também redesenha o equilíbrio competitivo. A OpenAI conseguiu se posicionar como o grande padrão de referência para inteligência artificial graças ao ChatGPT e sua adoção em massa. Mas ser excluído do núcleo do ecossistema Apple significa perder territórios-chave na batalha pela próxima geração de usuários.
Como mencionei na minha última coluna, na nova era da IA, não basta ter a melhor tecnologia, é preciso saber integrá-la. Esse é exatamente o significado profundo dessa aliança. A Apple não busca mostrar o maior modelo do mercado, mas sim que a inteligência artificial pareça natural dentro de seus dispositivos. Torne a Siri mais compreensível, mais útil e faça mais sem complicações. Sob essa perspectiva, depender do Google é uma decisão lógica.
A reação do mercado foi imediata. A Alphabet ultrapassou quatro trilhões de dólares em valor de mercado de ações e consolidou a narrativa de que a verdadeira vantagem competitiva da próxima década será o controle dos modelos de IA e dos ecossistemas onde operam. Não se trata apenas de quem desenvolve os melhores algoritmos, mas também de quem consegue trazê-los massivamente para o dia a dia.
Estamos entrando em uma fase diferente da revolução tecnológica. A inteligência artificial não é mais uma ferramenta para se tornar a nova interface do mundo digital. O que vemos hoje entre Apple e Google não é apenas um acordo comercial, é um sinal de como o mapa de toda a indústria está sendo redesenhado.
Análise de Gonzalo Rojon da Unidade de Inteligência Competitiva, The CIU.

